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Perseguindo o vento

Com o tempo você desenvolve um faro. Começa a perceber antes quando algo é vento.

Sete andares de elevador. Tempo suficiente pra pensar numa coisa que me incomoda há um tempo.

Eu passei anos correndo atrás de coisas que pareciam urgentes. Reuniões que não precisavam existir. Debates técnicos que não levavam a lugar nenhum. Pessoas defendendo posições que nem elas mesmas acreditavam. Projetos que nasciam pra morrer.

Eclesiastes chama isso de "perseguir o vento". A metáfora mais precisa que existe pra descrever boa parte do que acontece dentro de grandes organizações.

Com o tempo, com as situações que você vive, você desenvolve um faro. Começa a perceber antes quando algo é vento. Quando uma discussão existe pra alimentar ego e não pra resolver problema. Quando um projeto nasce do hype e não da necessidade. Quando alguém tá ocupado mas não tá produzindo.

Esse faro te livra de muita coisa inútil. De muita energia gasta pra nada.

Nos últimos meses eu liderei duas migrações grandes. Meses de preparo, dezenas de pessoas envolvidas, e um monte de ruído ao redor. O que me ajudou não foi ser o mais técnico da sala. Foi saber onde botar energia e onde não botar. Qual reunião importava e qual era teatro. Qual bug era bloqueante e qual era barulho.

Alguém vai chamar isso de cinismo. Tudo bem. Eu chamo de sobrevivência. Você tem uma quantidade finita de energia por dia. Cada hora perseguindo vento é uma hora que não volta.

Salomão escreveu isso há três mil anos. Todos nós ainda precisamos reaprender e exercitar.