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A Mesa Vazia

A mesa da doutora estava vazia. Sem computador, sem tela. Só ela, um bloco e a caneta. Em 2026. Essa imagem me fez refletir sobre o quanto terceirizamos nossa cognição.

Galera, levei meu filho no pediatra recentemente.

Como a gente muda muito, meu filho muda de pediatra direto. Mais uma vez, mudou. Conhecemos a nova pediatra.

Chegamos no consultório. Muito bonito, muito organizado. Tínhamos o horário agendado, naquele horário só tinha a gente e o paciente saindo.

Aí a gente entrou na consulta e eu percebi algo muito engraçado.

A doutora tinha uma mesa vazia.

Muitas vezes a gente se depara com um profissional de saúde que tem uma mesa abarrotada de coisas, geralmente um computador, uma tela, impedindo sua visão, sua interação com o médico. Pelo menos de forma completa.

E lá estava ela. Simplesmente sem nada na mesa. Ela não tinha computador.

Comecei a observar. Ela anotava tudo. Lia tudo. Fazia tudo sem o auxílio de computador.

Eu achei engraçado. Na verdade, fiquei embasbacado. Tive que chamar minha atenção para voltar a estar presente na consulta, porque fiquei um tempo refletindo sobre aquilo. Falei disso várias vezes com a minha esposa.

Fiquei chocado como ela não usava nenhum computador. Em 2026.

E o mais interessante: ela faz muito bem o trabalho dela. As informações que eu precisei estavam com ela. No cérebro dela.

Pensei: caraca. Sou UM profissional de tecnologia da informação. Me deparo com uma pessoa que simplesmente não usa computadores. Ainda usa fichas. Anota as coisas a caneta. Tem o domínio de todo conhecimento ali. No cérebro dela.

Isso pode não ser prático, talvez. Mas será que tem que ser tudo tão prático, afinal?

Escrever, produzir, ler — tudo tem que passar por alguma ferramenta? O quanto do nosso trabalho, do que criamos, estamos realmente guardando no nosso cérebro, e o quanto estamos delegando?

Esse pensamento tem sido o foco. O meu foco. Na construção dos sistemas que entrego.

Acredito que o cérebro humano é muito mais potente do que pensamos. É um hardware muito mais veloz, muito mais suficiente. Precisamos explorar isso mais. Com certeza.

Principalmente em tempos de brain rot. Atenção barata. Pessoas que não conseguem se interessar por nenhum texto maior que vinte minutos.

E eu me incluo nisso. Tenho tido dificuldade para seguir com minhas leituras, porque minha atenção está bastante defasada. As ferramentas, meios, mídias sociais, toda a estrutura econômica que temos hoje não ajuda em nada para que tenhamos atenção focada no que devemos focar.

Talvez pra alcançar mais, a gente precise subtrair bastante.

Aquela mesa vazia me lembrou disso.